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Conheça a real história da fundação de Itajubá

07/03/2019 às 14:54

Por Marco Antonio Gonçalves

A história oficial é cheia de omissões; Padre Lourenço tinha filhos e já planejava vir para o que hoje é Itajubá (que já tinha habitantes) antes de se instalar na antiga Delfim Moreira

 

A fundação de Itajubá é conhecida por muitos de seus moradores, mas em torno dela há, como sempre na história, muito folclore e muitos mitos. O local onde hoje é Itajubá já era habitado antes da chegada de Padre Lourenço, o que pode pegar muita gente de surpresa. Agora, quais os motivos que trouxeram Padre Lourenço para este local?

 

“Padre Lourenço da Costa Moreira convidou seus paroquianos a descer a serra, rumo ao Sapucaí, à procura de um lugar aprazível e bom, no qual se pudesse construir a nova sede da Freguesia”, diz texto no site da prefeitura da cidade, tirado do livro de Armelim Guimarães, que é referência a respeito da história de Itajubá. Um padre, que sabendo da pobreza e da dificuldade que viviam seus paroquianos resolveu procurar um lugar melhor para se estabelecer. Depois de um tempo, encontrou um lugar perfeito. Ali, rezou uma missa e estava fundada a cidade de Itajubá. Essa é a história que todos conhecemos como sendo a História da Fundação de Itajubá, mas será mesmo que padre Lourenço acordou um dia e resolveu que o local em que estava não era bom e partiu, como um Moisés em busca da terra prometida, para procurar outro lugar para acomodar a paróquia?

 

Padre Lourenço tinha vários interesses, inclusive comerciais, para vir para o local, onde ficou conhecido como fundador. É o que apontam professores e historiadores que estudaram a história de Itajubá.

 

Primeiro é importante lembrar que, ao contrário do que muitos podem imaginar, o local onde hoje é a cidade de Itajubá já era habitado antes mesmo da chegada de Padre Lourenço. “Já existiam fazendas na região de Boa Vista do Sapucaí (Itajubá atual), doadas aos sesmeiros, mas nada parecido com a formação de um arraial. O Pe. Lourenço recebeu terras para a construção da igreja e para a infraestrutura do novo povoado”, é o que diz o Professor Juliano Custódio Sobrinho, Doutor pela Universidade de São Paulo, que escreveu um livro a respeito da história de Itajubá no Século XIX. Portanto, Itajubá não era um local completamente selvagem e inexplorado. Embora não houvesse a formação de uma vila nas redondezas, já haviam fazendas. Há relatos de que Pe. Lourenço ficou hospedado com sua família em uma delas, onde hoje é o bairro da Boa Vista quando chegou.

 

Os livros de Armelim Guimarães são a maior referência para estudo e para o entendimento da história da fundação de Itajubá. Outro pesquisador que também escreveu sobre Itajubá e é muito utilizado com referência é Geraldino Campista.  Eles são usados por diversos pesquisadores contemporâneos, mas muitos vão também trilhar outros caminhos para contar a história da cidade.

 

Padre Lourenço tinha filhos

Primeiro, é importante recuperar aspectos da vida do padre Lourenço da Costa Moreira. Ele nasceu em Portugal e era filho do Padre Francisco da Costa Moreira, que viria a ser vigário em Guaratinguetá. De acordo com texto de Armelim Guimarães, o Padre Lourenço veio para Itajubá “acompanhado de seus escravos, da senhora D. Inês de Castro Silva, do Dominicano, menino de cinco anos, e de Delminda, pequerrucha de apenas dois anos, os quais estavam sob os cuidados de zelosas mucamas de sua comitiva”. Embora não citados como tal nas histórias que chegam até nós nos livros oficiais, Delminda e Domiciano eram filhos do padre Lourenço, com Inês de Castro Silva, que era sua concubina. 

 

Sobrinho pontua: “Casos em que podemos conferir a condição de concubinato com o conhecimento e consentimento implícito do próprio representante da igreja, como um tipo de relação consensual praticada pelo próprio sacerdote”. Percebe-se que naquela época era comum que padres tivessem famílias, embora não fossem casados de fato, como o próprio padre Lourenço.

 

Lei de Terras

A professora Felícia Eugênia de Abreu Couto em uma extensa entrevista publicado no blog Núcleo de Estudos e Pesquisa Histórica (NEPHIS) em 2007 sobre fontes históricas de Itajubá vai dar uma visão diferente das intenções de Padre Lourenço quando veio para o que hoje chamamos de Itajubá.

 

Em 1851 e 52, uma mudança na lei de terras vai fazer com que o Padre Lourenço escreva no livro de óbito dos escravos, que está na Matriz de Itajubá, de acordo com a professora Felícia, a história de sua chegada a Itajubá. É essa história contada por ele nesse livro que ficará imortalizada.

 

Essa nova “Lei de Terras”, afirmava que toda a posse ocorrida antes de 1820 estaria legalizada, desde que o posseiro pudesse comprovar sua presença na terra com documentos ou registros anteriores a 1820.

 

“Por isso temos um registro feito pelo Padre Lourenço, entre os anos 1851-52, no Livro dos Escravos, com um caráter oficial, resolvendo a questão da posse da terra por aqui (note-se que o registro do “Padre Fundador”, criando a história da fundação do núcleo urbano, é feito a posteriori)”, diz a professora.

 

De acordo com ela, o padre faz uma narrativa muito bem fundamentada, porque este é um documento legal, do qual se enviará uma cópia ao Rio de Janeiro, às autoridades imperiais, para garantir a posse da terra para os moradores da recém-criada Vila (em 1849 ocorreu a criação da Vila da Boa Vista de Itajubá, ou Itajubá Novo, independente de Campanha).

 

O padre vai narrar que em janeiro de 1819 morreu seu pai, então vigário de Guaratinguetá, por isso ele adiou sua posse como vigário colado na capela de Soledade de Itajubá. Em fevereiro, resolvidas todas as pendências, ele parte para o povoado na Serra da Mantiqueira.

 

“Chegando ao local, verificou que a povoação era muito pobre, com as atividades econômicas estagnadas e a mineração decadente. Reuniu, então, a população das “Minas Novas do Itajubá” ou do “Descampado da Soledade do Itajubá”, e, eles decidiram que ele estaria encarregado de procurar uma nova terra onde seria possível uma vida melhor para a comunidade”, conta a professora.

 

O padre vai relatar que alguns dias depois, já de posse de informações sobre um bom local para o novo núcleo, reuniu então na Igreja as pessoas que deveriam partir com ele, na noite do dia 18 de março de 1819, e todos decididos, tomaram as embarcações para descerem o rio Santo Antônio, um pequeno afluente do Rio Sapucaí, em busca do novo local. Junto com padre Lourenço, oitenta famílias se movimentaram, segundo seu relato.

 

No imaginário popular itajubense, pode-se acreditar que Padre Lourenço e seus seguidores partiram sem saber aonde chegariam, mas não é bem assim, como o próprio padre vai relatar no livro.

 

Segundo o relato do padre, na madrugada do dia 19, eles chegam no que hoje é denominado Porto Velho, uma planície que ele vai chamar de Boa Vista. Após caminharem um pouco (ou subirem a elevação em frente ao porto), encontraram o local ideal, onde montaram uma capelinha de pau-a-pique para demarcarem sua chegada e rezaram a primeira missa, agradecendo a Deus pelo sucesso da empreitada. Após a missa o padre determinou que todos deviam aguardá-lo, pois ele iria em busca dos sesmeiros da região.

 

“Neste ponto fica a impressão, no texto, de que os sesmeiros eram seus conhecidos (seja pela visita anterior, quando buscava um local para o seu grupo, seja por terem com ele comerciado, enquanto ele era representante do engenho do pai”, diz a historiadora, lembrando que o pai de Lourenço tinha um engenho de açúcar em Guaratinguetá e comerciava com sesmeiros da região da Mantiqueira.

 

O padre Lourenço, então, convenceu os sesmeiros da região a doar o terreno para a capelinha da igreja. Segundo relatos, esses sesmeiros, o que seriam hoje chamados de fazendeiros, moravam na região onde é o bairro Boa Vista atualmente. O Padre Lourenço, inclusive, teria ficado hospedado em uma fazenda, próximo onde hoje é a Praça do Soldado.

 

O padre também ficou encarregado de dividir as terras doadas entre seus companheiros de aventura, estabelecendo com quem ficariam os lotes e faria também o arruamento do novo núcleo.

 

Interesse comercial

Armelim Guimarães vai dizer que em 1818, o padre Lourenço vai à Corte, possivelmente instigado pelo pai, solicitar ali um cargo de vigário em Soledade de Itajubá. A negociação na Corte (Rio de Janeiro) consome metade do ano de 1818. Os objetivos desta negociação seriam garantir a situação de Lourenço, filho do Pároco de Guaratinguetá, que era herdeiro de um moinho de cana e de muitos escravos.

 

Embora a família da Costa Moreira possuísse um moinho de cana e fizesse a venda do produto, Guaratinguetá não possuía cana de açúcar. “E sendo um herdeiro rico, com uma escravaria e um ponto de venda, é possível imaginar a seguinte situação: a luta pela paróquia logo seria intensa e permanecer em Guaratinguetá, longe dos produtores não seria possível. Então, a necessidade de estabelecer outro ponto como base para seus negócios levou o Padre Lourenço a buscar a criação da Paróquia e a escolha recaiu sobre a região do rio Sapucaí, região produtora de cana, algodão, trigo e fumo. Justificando todo seu esforço para convencer o Rei a fazer a divisão da paróquia de Guaratinguetá, de modo a atender seus anseios em permanecer próximo a uma grande região produtora é que levaram Lourenço da Costa Moreira a lutar na Corte”, diz a professora Felícia.

 

O padre lutou para que o reino criasse uma paróquia sob seu controle em uma área que ele já conhecia, seja por contato com sesmeiros ou mesmo porque seu pai era o padre da localidade e também comerciante.

 

“Entretanto não seriam estes os argumentos a convencer o Rei da necessidade de se criar uma nova paróquia numa região erma. Era necessário partir de uma base, uma capela que mesmo estando isolada, seria capaz de absorver recursos para se auto-sustentar e encampar as demais populações do vale do Sapucaí”. Para Felícia, a ida de Padre Lourenço à Soledade de Itajubá, hoje Delfim Moreira, seria apenas uma formalidade. Ele já tinha em vista a mudança da sede da paróquia. “Por isso sua ida a Soledade para assumir como vigário seria uma mera formalidade, pois logo que chegou, tratou de se transferir para uma nova capela criada às margens do Rio Sapucaí, Boa Vista do Sapucaí, em homenagem a São José, com doação do terreno pelos seus conhecidos, os sesmeiros (possivelmente seus fornecedores de mercadorias)”.

 

A história que conhecemos como oficial, principalmente contada pelos livros de Armelim Guimarães, é apresentada como se fosse fielmente iniciada em março de 1819, e não um relato feito 32 anos depois.

 

No começo dos anos de 1830, os entreveros entre o padre Lourenço e seu séquito, instalados em Boa Vista de Itajubá, e os moradores de Itajubá Velho aumentaram substancialmente, por conta de questões comerciais e principalmente, quando o padre quis tirar a imagem da antiga localidade para trazer para a nova. Estes episódios acabam afastando padre Lourenço da Delfim Moreira de hoje e com o tempo e com as brigas ele acabou isolado.

 

Mas em 1851, quando ele escreveu oficialmente no Livro dos Escravos, salvaguardou os interesses dos moradores da nova vila dos anos 1850, mas não pode escrever todo o desenrolar dos fatos fielmente como o ocorrido.

 

“Sendo assim lançou mão de uma metáfora: contando sobre uma grande viagem (como um novo Moisés), descreve a vinda de um povo quase perdido na pobreza de um local atrasado, levado por ele para uma boa terra, um grande povo que faz jus a esta terra, agora reivindicada, no seu tempo presente”, diz a professora Felícia Eugênia.

 

Segundo a professora, há também imprecisão de datas, pois segundo suas pesquisas, no dia 19 de janeiro de 1919, o padre Lourenço estava em Delfim Moreira, realizando batizado. “Olhando os registros em Delfim Moreira descobri que o padre Lourenço somente assina os documentos das “desobrigas” na Igreja, e que, em março (no dia 19) de 1819, ele estava realizando batizado em Soledade. Por isso a imprecisão sobre as datas apresentadas em sua história escrita durante os anos 1850”.

 

“Ele não podia contar com fidelidade os fatos, mas também precisava ser o mais próximo possível da realidade. E o melhor caminho é o da parábola, pois nela o narrador pode prescindir do tempo real, e ser mais vago na datação”, diz ela.

 

De acordo com o pensamento da professora, tudo foi pensado pelo padre na década de 1850. “O que poderia ser mais singelo? Ao descrever que “na véspera do dia dedicado ao meu santo de devoção, São José, reuni o povo de Soledade para virmos a esta terra e na manhã seguinte celebramos uma missa ao meu santo de devoção”.

 

Para consolidar a posse das terras das família que moravam em Itajubá em 1850, padre Lourenço escreveu que essas 80 famílias vieram com ele em 1819. “Oitenta famílias em êxodo em 1819 é um absurdo que por si só já desmontaria a versão descrita. Se Soledade tivesse oitenta famílias, seria uma paróquia tão próspera que rivalizaria com Ouro Preto, capital da Capitania e depois da Província, na região do ouro e o padre Lourenço não teria condições sequer de cogitar uma mudança de sede para a paróquia, se ela fosse tão próspera”.

 

De acordo com a professora, a análise do início do povoamento de Itajubá deve então ser feita ao longo de um período entrecortado por três fases distintas: a negociação de 1818-19, a consolidação da paróquia em 1832 e a criação da Vila em 1848-1849. “Todos estes períodos costurados em uma metáfora muito bem elaborada pelo padre Lourenço, que apesar de estar exilado do outro lado do rio Sapucaí, e, poucos anos antes de sua morte, consegue legitimar a posse da terra para todos os moradores da Vila recém-criada”.  O “mito do Padre Fundador” ficou estabelecido através do documento criado por ele, para legitimar o direito dos moradores da vila, diante da Corte, com a nova Lei de Terras, tão forte se tornou este mito, que até hoje perdura no imaginário e na documentação que foi repetindo as palavras do Padre Lourenço sem fazer nenhuma crítica, comenta a professora.


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