Área do Assinante

Acesse sua conta e leia agora as principais notícias da nossa cidade e região e conteúdos exclusivos d'O SUL DE MINAS.com.

Cadastrar
Perdi minha senha!
Acesse www.osuldeminas.com

Itajubá tinha a maior concentração de escravos do Sul de Minas no Século 19

26/02/2019 às 15:54

Por Marco Antonio Gonçalves

A história de Itajubá, que completa 200 anos de sua fundação por Padre Lourenço da Costa Moreira no dia 19 de março, é repleta de belas histórias, mas outras, tristes, não foram contadas ou não são de conhecimento geral.

Alguns historiadores se debruçaram para contar e entender a história da cidade, que muitas vezes é escondida por "versões oficiais" que não se parecem muito com a realidade.

O Jornal O SUL DE MINAS trouxe no mês passado, o outro lado da história da fundação da cidade. Nesta edição, o jornal tenta recapitular a história da escravidão em Itajubá. Sabe-se que a escravidão é um assunto muito pouco explorado no Brasil. É um tabu que as pessoas parecem querer deixar debaixo do tapete.

Em Itajubá não é diferente. Pouco se sabe da história dos escravos que viveram na cidade e de como se deu todo o processo que levou à abolição.

A história muito contada e difundida é que a cidade ganhou a denominação de “Cidade Luz”, dada por José do Patrocínio, um dos principais nomes da causa abolicionista no Brasil.

“A libertação dos escravos, em Itajubá, foi antecipada em dois meses, acontecimento que teve repercussão nacional, chegando a merecer do abolicionista José do Patrocínio a denominação de "Cidade Luz””, é o que se vê escrito em diversos sites e livros que tentam resumir a história de Itajubá.

Entretanto, quando se pesquisa a real história vê-se que os fazendeiros nada tinham de altruístas ao fazerem a abolição na cidade, que na verdade, nem chegou a fazer efeito. Eles defendiam seus próprios interesses.

 

Escravidão

Primeiro é importante contextualizar a cidade de Itajubá e seus escravos. O historiador Juliano Custódio Sobrinho, professor da Uninove, é um dos principais pesquisadores atuais sobre a história de Itajubá e tem um extenso trabalho sobre a região nos séculos XVIII e XIX. Muitas das informações contidas nesta reportagem foram tiradas de seus artigos e livros.

“Em 1833, Itajubá era o mais próspero distrito do termo de Campanha”, diz o professor. Abrigando quase tudo o que a gente conhece como Sul de Minas, Campanha era a sede e Itajubá era um distrito dentro de Campanha.

Em um censo de 1832, ano em que Itajubá foi elevada ao status de freguesia, resgatado na internet pelo Projeto Compartilhar, registra-se que Itajubá tinha 5.217 habitantes, com 2.998 livres, que representavam 64,75% da população e 1.632 escravos, 35,25% da população. Outros 587 não se tem informação sobre a sua condição.

Segundo este censo, a maior proprietária de escravos na cidade era Dona Maria José Pereira, viúva, quatro filhos, 36 anos e 132 cativos. 

Custódio Sobrinho conta que assim como o  Padre  Lourenço,  Dona Maria  José  Pereira,  era natural  da  freguesia  de  Santo Antonio, Província  dos  Açores,  no  Reino  de  Portugal,  e em  1835  era residente na fazenda do Rio Manso, na freguesia de Itajubá, onde fez fortuna. Entre seus bens inúmeras joias, pratarias, ouro, móveis, instrumentos de trabalho, uma grande lista de devedores, uma tropa de escravos que se encontrava na Corte do Rio de Janeiro, muitos  animais,  inúmeras propriedades (entre casas e terras) e mais um expressivo patrimônio contabilizado em 90 escravos (no ano de 1835), o maior plantel de cativos encontrado na região.

Em Itajubá, até 1850, a média de escravos era de 11,5 cativos por proprietário. A média aumenta porque alguns tinham muitos escravos, como dona Maria José. 46% dos senhores da região de Itajubá tinham entre 1 a 5 escravos.

 

Freguesia próspera

Itajubá era já em meados do século XIX uma freguesia muito próspera, se destacando em todo termo de Campanha. De acordo com Sobrinho, Itajubá possuía o maior número de pagadores de dízimos de todo o termo, sem contar que tinha também a maior participação da população escrava no total do contingente da freguesia.

Ou seja, Itajubá tinha, como todas as freguesias e sedes do império, na mão de obra escrava um importante alicerce para a economia. Com número bastante elevado de pessoas cativas, Itajubá era um reduto importante do escravagismo na região.

Segundo estudos, Itajubá tinha um bom número de cativos africanos. De acordo com o historiador, as evidências demonstram que o sul de Minas participou intensivamente do tráfico negreiro internacional, ao menos para as primeiras décadas do século XIX, e para muitas freguesias e distritos o contingente escravo de origem africana atingia percentuais compatíveis com as áreas de agroexportação.

Nos inventários post-mortem pesquisados por Sobrinho se constatou que entre 1821 e 1850, Itajubá tinha 353 escravos africanos e 644 crioulos, que são os nascidos no Brasil. 272 não contavam origem.

“De qualquer maneira, essa presença de africanos na freguesia vem a confirmar a participação desses agentes dentro do processo produtivo de Itajubá e a sua ligação com o tráfico, possivelmente a partir da compra desses escravos na praça carioca”.

A proibição do tráfico negreiro ocorreu no Brasil através da lei Eusébio de Queiroz em 1850.

Os escravizados em Itajubá formavam família e se casavam. “Foram encontradas,  majoritariamente, casamentos entre crioulos ou africanos com crioulos. Apenas uma família  de  pais  africanos  apresentaram  uma  filha  africana.  O escravo  João,  de  40  anos,  era africano (cabinda) e casado com a escrava Magdalena, de 28 anos, também africana (monjola). O casal tinha uma filha, Ignácia, de 8 anos e africana (monjola). Eles eram escravos de D. Maria José Pereira", diz inventário de Dona Maria José. Ou seja, a família da fazendeira havia comprado toda a família de escravos pouco antes deste inventário, provavelmente quando eles chegaram traficados ao Brasil , já que a menina Ignácia nasceu na África.   

Vários processos apresentaram  com  frequência  a  presença  de  pais  africanos,  formando  suas famílias nucleares já no Brasil. Assim foi o caso de José, de 44 anos, de “nação”, casado  com Catharina, de 36 anos e africana (Benguela). Tiveram o filho Bento, de 14 anos, e crioulo.

É interessante observar que estes registros estão em inventários dos proprietários que passavam os escravos para seus herdeiros, como faziam com qualquer outra propriedade, como casas e animais.

Outro caso sempre frequente nos inventários era a presença de mulheres africanas que possuíam filhos, mas que não era citado o nome dos pais. Este foi o caso de Joanna, 40 anos, de  “nação” e que tinha um filho: Manoel, de 14 anos e crioulo. Eventualmente, os testamentos e inventários podem trazer à tona a presença no cativeiro, de indivíduos que foram  frutos  de  relações  entre senhores  e  escravos.  Antes de falecer, o  Capitão  José  Gonçalvez  Silva,  viúvo  de  D.  Luiza  Francisca  de  Jesus,  residente  também  na fazenda da Barra, na freguesia de Itajubá, deixara em testamento, em 1842, parte de seus bens aos  seus  filhos  herdeiros,  que  teve  com  duas  escravas. Declarou como filhos, Francisca e Honório, de 13 e 10 anos, respectivamente, que tivera com Maria parda. A outra herdeira era Claudina, de 9 anos, que teve com Geraldina parda. Todos os filhos foram denominados como pardos e as mães não  pertenciam  ao  plantel  do  Capitão  José  Gonçalvez.  Com a falecida, D. Luiza Francisca não tivera nenhum filho.

Em Itajubá, a vida dos escravos e senhores nada foi diferente de outros lugares do Brasil.

“Por conta da minha dissertação de mestrado, pude constatar, a partir da análise de inventários post mortem e as listas nominativas para Minas Gerais, de 1831-1832, uma grande concentração escrava frente a população livre para uma das freguesias do termo de Campanha, a freguesia de Itajubá, durante o século XIX. Aliás, Itajubá é apontada nos trabalhos de demografia escrava como a de maior concentração de escravos por unidade produtiva, o que também constatei na minha dissertação”, diz o professor em um de seus trabalhos.

 

Movimentos abolicionistas

Movimentos abolicionistas ou de emancipação dos escravos surgiram em Itajubá no final do século pouco antes da assinatura da Lei Áurea. Um dos porta-vozes do movimento era o jornal A Verdade, sediado na cidade. O jornal, dirigido por Antônio José Pinto da Silva, circulou em Itajubá entre 1886 e 1896. A leitura das páginas de A Verdade oferece numerosas matérias em favor da “redenção de homens valetudinários”, os escravos, cuja libertação definitiva seria “sempre agradável à consciência e à alma [por ser] um ato de justiça e reparação”. A liberdade concedida aos escravos por seus proprietários traria “hosanas aos que praticam beneficências e honra aos que as merecem”, disse o jornal em 4 de março de 1886; o gesto de oferecer manumissões configuraria “uma prova do bom coração dos que praticam esse ato de amor e caridade”, disse a edição de 11 de março de 1886.

“Para os redatores de A Verdade, a extinção do trabalho servil era questão moral e civilizatória, destinada a mostrar o quanto o país estaria disposto a trilhar o caminho do progresso. Nesta perspectiva, o periódico de Itajubá encabeçou campanha entre seus leitores para angariar fundos destinados à emancipação de cativos no município, publicando em suas edições as contribuições recebidas e as alforrias alcançadas”, analisa o professor em sua pesquisa. 

Fabiana Francisca Macena, da Universidade Federal do Mato Grosso e Diva do Couto Gontijo Muniz, da Universidade de Brasília, contam sobre a participação de mulheres no movimento abolicionista mineiro.

"Em Itajubá, cidade do Sul da província, por ocasião da visita de inspeção de alguns engenheiros que analisavam a viabilidade para a instalação de uma estrada de ferro na região, mulheres defenderam a abolição. Segundo o jornal A Verdade, “inspirado por exemplos abolicionistas, um grupo de itajubenses decidiu instaurar: uma commissão de senhoras para promover a libertação total dos escravos residentes nesta localidade, na occasião da mesma inauguração, ficando encarregada da convocação de nossas virtuosas e dignissimas conterraneas, para esse fim, a exma d. Emiliana Olinto. (...) A comissão, formada por “virtuosas e dignissimas” senhoras, tinha como objetivo convencer alguns resistentes proprietários de escravos da cidade a aderirem ao movimento libertador e respaldava-se justamente na “pureza das virtudes”, na “delicadeza dos sentimentos” de suas integrantes."

Segundo as pesquisadoras, a presença dessas “virtuosas” mulheres seria uma espécie de garantia de que a “libertação total dos escravos” de Itajubá ocorreria dentro da ordem e sob os mais “louváveis e santos intuitos”.

Eles também afirmam que, além disso, “investia-se também na imagem da estrada de ferro como sinônimo de tempos modernos incompatíveis com a escravidão. Tal como a esperada estrada de ferro que iria libertar a região dos entraves para a circulação e transporte de pessoas e produtos, inscrevendo-a na modernidade, também a abolição da escravidão cumpriria esse papel e essa exigência. Havia uma previsão de que a obra de “libertação total” dos cativos fosse realizada em aproximadamente 18 meses, tempo provável para a inauguração da ferrovia. A data não era fortuita; ela foi definida justamente para celebrar as duas iniciativas como marcos fundantes da Itajubá moderna, cidade cuja população queria “progredir””.

Não por acaso, o jornal aposta na ideia de que a chegada da ferrovia, símbolo do progresso e da modernização, não seria condizente com a permanência da escravidão, instituição que já era vista por muitos como associada ao passado colonial, como “magno problema que faz a preocupação entre nós”.

De acordo com as pesquisadores, não por acaso, a responsável pela tarefa de convocação das “virtuosas conterrâneas” não era ninguém menos do que a esposa de Adolpho Augusto Olinto, juiz de direito da comarca de Itajubá e membro do diretório do Partido Liberal da cidade. Tal indicação revela-nos para a dimensão política e também partidária da iniciativa, subsumida na capa protetora da filantropia”.  


Abolição em Itajubá

Como já foi dito, é muito famosa a denominação de “Cidade Luz”, que José do Patrocínio teria dado a Itajubá, que, segundo consta, foi a primeira cidade a libertar os escravos em Minas Gerais. Em muitos lugares é possível encontrar essa descrição dizendo que os senhores tiveram um gesto altruísta ao libertar os cativos itajubenses. Tudo isso para passar a imagem de senhores bondosos que, por livre e espontânea vontade, decidiram libertar seus escravos.

Na verdade, em 1888, a pressão para a abolição já era muito grande no Brasil, que inclusive recebia sanções internacionais, e movimentos abolicionistas e republicanos ganhavam muita força. No começo daquele ano a abolição era apenas uma questão de tempo.

O livro do Memorial da Câmara de Itajubá, que trata do período de formação do município até a proclamação da república conta muito bem essa história.

Segundo o livro, houve uma reunião convocada por Francisco Braz Pereira Gomes com os fazendeiros da freguesia de Itajubá no dia 11 de março de 1888 e outra convocada pelo Capitão Antônio José Rennó, onde participaram os senhores da freguesia de Santa Rita do Sapucaí.

Os dois grupos concordaram e tomaram a seguinte decisão. “Considerando os interesses humanitários, sociais e agrícolas, fica estabelecido que com o ônus da prestação de serviços aos signatários desta, até o dia 25 de dezembro ficam libertos todos os escravos, se antes por lei não gozarem deste benefício, com a condição de prestação de serviços até o dia 25 de dezembro”.

Para os escravos de Itajubá, até o dia 7 de setembro não seriam pagos salários. Os salários seriam pagos de setembro até o dia de natal. Depois, ficariam, de fato, libertos.

 Os de Santa Rita do Sapucaí, ficariam libertos desde o dia 7 de setembro e não 25 de dezembro, como os de Itajubá.

De acordo com o livro da Câmara, “Pela forma como a questão é apresentada pela imprensa local, verifica-se que os reais propósitos dos fazendeiros não eram abolicionistas, mas sim a defesa de sua propriedade e a antecipação de uma possível reação dos seus escravos, face aos acontecimentos que vinham ocorrendo nas províncias vizinhas”. 

Ou seja, a abolição já se avizinhava, como eles mesmos deixaram transparecer na decisão. A libertação dos escravos dois meses antes da Lei Áurea não ocorreu, de fato. Embora alforriados, eles continuaram cativos e foram definitivamente libertos pela mão da Princesa Isabel e não dos seus senhores.

A Lei que libertou os escravos foi assinada pela princesa regente em 13 de maio de 1888. O Jornal A Verdade noticiou, entusiasmado, a assinatura da Lei Áurea: “Brasil Livre. Treze de Maio. Extinção da Escravidão. Libertas Quae Sera Tamem. Ave, Libertas! Está escrita uma das páginas mais gloriosas da história pátria. A completa extinção do elemento servil, já adiantada pelo influxo do sentimento nacional e das liberalidades particulares, é um fato consumado, felizmente, pela lei n. 3353, de 13 de Maio corrente. Não há mais escravos no Brasil! Frase consoladora e que exprime a primeira condição de prosperidade de um povo livre e civilizado”.


Recomendar a um amigo Voltar
Ver todas as notícias em Geral Ver todas as notícias

Mensagem rápida | Editais | Adm | Classificados | Comercial | Leitor

The CAPTCHA image

Em Áudio

Digite abaixo os caracteres acima correspondentes.


cancelar

Jornal O Sul de Minas | Rua Xavier Lisboa, 316 CEP: 37501-042 | Itajubá, MG - Brasil | Telefax: 35 3621 1522

Sites profissionais para o seu negócio